SÃO JOÃO NEPOMUCENO - JAN NEPOMUCKY

134 ANOS OU 173 ANOS?



Por José Carlos Barroso

Desde que começamos a estudar profundamente a historia de nosso Município muito nos intrigou as controvérsias de datas, até que levado pelas explicações e estudos do historiador e professor Cláudio Heleno Machado, resolvemos suscitar questões, sabedores de que qualquer atitude poderia estar revolucionando uma historia contada há tempos nos bancos escolares.

Foi como Superintendente da Fundação Cultural São João Nepomuceno, e no ano de 2003, que escrevendo a história do Município, seus grandes vultos, e suas instituições através dos tempos, além de algumas curiosidades, com as quais nos deparamos ao longo de nosso trabalho, é que propusemos uma reconstrução, um resgate mesmo, dos fatos históricos esperando que nossas autoridades aceitassem nossas posições e ponderações em torno da questão e se unissem e comungassem conosco desse esforço.

Infelizmente assim não entenderam, e todo o nosso esforço, foi interrompido, até que somente agora no ano de 2010, que a Fundação Cultural, acatando os nossos estudos e, ainda do historiador André Cabral, aquela proposição revolucionaria da história foi levada até nossa Câmara de Vereadores, quando então vimos coroada nossa proposição, isto em 29 de abril de 2010.

Não passam elas de simples afirmações evasivas e desconexas, são todas oriundas de profunda pesquisa e estudo além de serem embasadas no relato e conhecimento de grandes nomes e de importantes historiadores, como o Cônego Raimundo Trindade, Celso Falabella de Figueiredo Castro, Dr. José de Castro Azevedo, Dr. Paulo Roberto Medina, Padre Dr. José Vicente César, Professor Cláudio Heleno Machado, Professor Antonio Henrique Duarte Lacerda do Arquivo Público de Juiz de Fora, e agora André Cabral, dentre outros, todos amparados por rica bibliografia oriunda de arquivos, jornais e livros.

O importante é que não esmorecemos e, sempre esperamos, que nossas autoridades permanecessem solidárias à nossa proposta e pudessem endossá-las unindo esforços na tentativa de reconstrução e recuperação da história de nossa São João Nepomuceno

Para que nossos jovens, e crianças em particular pudessem ter em mãos um compêndio contendo um pouco de nossa história, para suas pesquisas, e conhecimento, e que nossos professores deste trabalho se utilizassem para seus estudos e informações profissionais, apresentamos no ano de 2003 no Jornal O SUL DA MATA, a primeira edição dessa historia tão rica.


E foi com este mesmo pensamento que abraçamos a ideia e que só agora entregamos a todos por este blog São João Nepomuceno (JAM NEPOMUCKY como o fruto de uma união de pensamentos e esforços.

terça-feira, 4 de maio de 2010

DR. CARLOS ALVES. GRANDE VULTO MUNICIPALISTA

Dr. Carlos Alves

Por Dr.Paulo Roberto de Gouvêa Medina
Curiosidades e comentários por José Carlos Barroso

Na esteira do tempo um grande vulto se destacaria em São João a partir de 1853. Para esse, é preciso abrir espaço na galeria dos nossos pró-homens, porque a sua dimensão ultrapassa os limites comuns. Foi em verdade mais do que uma figura histórica foi um estadista, foi um herói, foi um mártir que morreu em holocausto à nossa terra. Chamava-se Carlos Ferreira Alves.
Natural da Vila de Estrela, no Estado do Rio de Janeiro, nasceu Dr. Carlos Alves a 06 de setembro de 1853, sendo filho do tenente coronel Manoel Luis Alves e de sua esposa D. Ana Isabel Alves.
Formado em Medicina, pela Faculdade do Rio de Janeiro, em 1875, após brilhante curso, em que obteve grau máximo – “plenamente” – em todas as disciplinas, logo no começo do ano seguinte, em janeiro de 1876, para aqui veio atendendo a convite de seu amigo, o Dr. Joaquim Antônio Dutra neto do Coronel José Dutra e seu companheiro desde os bancos colegiais.
Em São João, logo se afirmou como médico competente e dedicado, que sabia fazer de sua profissão verdadeiro sacerdócio. Granjeando enorme clientela, tornando-se conhecido de todo povo era natural que o eleitorado o conduzisse, com expressiva votação, a Câmara Municipal, onde teria posição de destaque, sendo eleito seu Vice-Presidente e em seguida pela unanimidade da Câmara para a função de Agente Executivo (o equivalente as funções que exerce hoje o Prefeito).
Como Agente Executivo desenvolveu profícua gestão, quando praticamente construiu a cidade, dando-lhe nova fisionomia, soerguendo o município do marasmo em que estava então, mergulhado.
Para se ter idéia do que era São João ao tempo em que Carlos Alves aqui chegou, basta ler essas palavras do Dr. Joaquim Antônio Dutra, proferida no Senado mineiro, quando do falecimento daquele vulto inolvidável:
“Era São João Nepomuceno, naquela época, uma freguesia do município de Rio Novo, sem vida social, sem comércio, era... quase um cadáver, que só a atividade, a energia, a tenacidade sem desfalecimentos de Carlos Alves poderia galvanizar, chamando-o à vida. E de fato conseguiu... constituindo-se o elemento poderosíssimo do engrandecimento e prosperidade locais.”
O significativo depoimento do Dr. Joaquim Antonio Dutra, companheiro de Carlos Alves na primeira Câmara Municipal de São João Nepomuceno e, depois no Senado estadual, encontra plena confirmação em fatos que são do conhecimento de todos nós são-joanenses.
Durante sua administração, o Dr. Carlos Alves, além de dar ao município estradas e pontes, organizou a instrução pública em São João e dotou a cidade de inúmeros melhoramentos.
Embora sendo médico, aqui fez o que noutros lugares foi obra de juizes e advogados: procedeu a uma campanha para a construção do Fórum local, recolhendo contribuições de particulares de forma a obter os vinte e dois contos em que ficou o edifício.(Onde funciona hoje a Escola Cenecista Dr. Augusto Glória).
Espírito empreendedor, procurando projetar a então obscura São João Nepomuceno no cenário da região e para ela atrair o interesse de homens de negócio, promoveu três exposições regionais na cidade, a primeira inaugurada em 22 de setembro de 1884, na qual foram exibidas 170 mostras de café; a segunda, mais completa ainda, instalada em 20 de setembro de 1885 e a terceira de todas a mais importante, aberta em 3 de outubro de 1886.
Fundou o núcleo colonial que tem o seu nome, atraindo assim os imigrantes italianos que dariam sensível contribuição ao nosso progresso.
Trouxe para a cidade pequenas indústrias, que, aqui se instalando, lhe deram nova vida.
Impulsionando as atividades intelectuais, fundou um jornal “O Município”, que circulou durante vários anos.
Homem de extraordinária visão, quando da abolição da escravatura sentindo os graves problemas sociais que dela logo decorriam, teve a idéia de criar em São João Nepomuceno, uma “Associação Beneficente e Protetora do Trabalho Livre” iniciativa, entretanto, que malgrado os seus esforços, não logrou adiante.
Por esse tempo, em 1888, o eleitorado do então 10º distrito conferiu-lhe um mandato à Assembléia Provincial, onde teve assento até a queda do Império.
Proclamada a República, é eleito Senador ao Congresso Constituinte do Estado, onde, ao lado de homens como Afonso Pena, Bias Fortes, Silviano Brandão e Olegário Maciel – futuros Presidentes do Estado e o primeiro também da República – ocuparia posição de destaque entre os seus pares, sendo eleito 2º Secretario da Assembléia.
Na discussão do projeto que resultaria a primeira Constituição de Minas Gerais, sua atuação foi das mais intensas e brilhantes. Carlos Alves desfraldou, na Constituinte, a bandeira do municipalismo. Dele fez seu programa e nele a sua própria justificativa de sua presença naquela Assembléia. Dizia a respeito “O meu interesse, tomando parte na discussão da primeira constituição, é especialmente defender a vida local. Só pode haver verdadeira federação no dia em que o município for independente e autônomo”. Levou o seu ideário municipalista a um ponto jamais perseguido, antes ou depois, ao propor e ver incluída na Constituição Mineira de 1891, a instituição de Conselhos Distritais, órgãos deliberativos existentes em cada Distrito do Município e compostos de três cidadãos, eleitos pelo povo, um dos quais seria o Agente Executivo Distrital.
Após a promulgação do texto constitucional, separando-se as duas casas do Congresso mineiro, para exercerem as suas funções legislativas ordinárias, foi aprovado no Senado o projeto da primeira lei de organização municipal, e ninguém mais do que Carlos Alves se sobressaiu nas discussões, sempre em defesa da autonomia local.
Em obra – As Instituições Republicanas Mineiras – o Prof. Silveira Neto, da Universidade de Minas Gerais, estudando o antigo Senado mineiro, com a perspectiva histórica que o decurso de noventa anos já oferece, conclui que o Senador Carlos Ferreira Alves foi “um dos grandes lutadores pela implantação dos princípios da Primeira República mineira”
Mas a página gloriosa da Vida de Carlos Alves ele a escreveria justamente no final, quando, em fins de 1895 e princípio de 1896, grassou, em nossa cidade, terrível epidemia de febre amarela.
Deixemos que a respeito, fale por nós um eminente político historiador mineiro, colega de Carlos Alves no Senado estadual o consagrado autor da “Efemérides Mineiras”, Xavier da Veiga:
“...ele deixou para epílogo de sua vida, tão cheia de atos meritórios e brilhantes, a página sublime que registra o consciente sacrifício da sua existência, preservando na luta pela salvação de seus concidadãos flagelados por epidemia devastadora, luta em que ele se multiplicava dia e noite, sendo a um tempo o médico, o enfermeiro, o diretor do serviço funerário, o consolador das viúvas e órfãos dos que sucumbiam”.
Consciente sacrifício, sim. Poços dias antes de cair por vez vitimado pela peste desoladora, e desmentindo uma notícia fatalmente agourenta de sua morte, escreveu no “O Pharol”, folha publicada na cidade de Juiz de Fora:
“Nunca me senti tão forte e tão disposto ...Com ânimo resoluto e firme espero a minha vez, sentindo apenas não poder escrever a história triste e lúgubre desta luta, que muito me tem servido para bem estudar a humanidade, que nunca supus tão pequena e egoísta.”
“Este trecho - conclui Xavier da Veiga – que é um adeus a este mundo de misérias, fotografa a grande alma do ilustre morto – vítima do dever, mártir da caridade, que tão grandiosa lição e tão fulgurante exemplo deu assim a contemporâneos e a pósteros! Sacrifício tocante que glorifica o homem e santifica-lhe a memória, credora de lágrimas e de bênçãos!”
Carlos Alves faleceu no Sanatório de Barbacena, a 6 de fevereiro de 1896, quando contava apenas quarenta e dois anos de idade.
Escreveu ainda Xavier da Veiga na sua morte:
“Guardadas as proporções do cenário político e do tempo dos certames – a gloria de o´Connel e a glória de Carlos Alves se equivalem.”

Curiosidades: *Conta-se que Carlos Alves ainda desenvolveu projeto para transformar o Rio Novo em rio navegável usando sistema de comportas e que ainda nas águas do rio pretendia construir uma usina de para geração de energia elétrica.
*Em princípios do ano de 1896 até o dia 2 de maio do mesmo ano a sede da comarca de São João Nepomuceno foi transferida para o distrito de Rochedo de Minas em decorrência da febre amarela. Consta que em audiência realizada em 8 de fevereiro foi consignado o seu primeiro voto de pesar com o passamento do Dr. Carlos Ferreira Alves.

Luis Alves de Lima e Silva, o Duque de Caxias, também era natural de Vila da Estrela, hoje município de Duque de Caxias no Estado do Rio de Janeiro, em homenagem ao grande soldado e comandante das forças brasileiras, na guerra Brasil – Paraguai. Vila da Estrela terra natal de Dr. Carlos Ferreira Alves, filho do Tenente Coronel Manuel Luis Alves.
Haveria algum parentesco entre eles?`´E bem possível disse-nos um de seus bisnetos de Dr. Carlos Ferreira Alves, Natanael

A vida de Dr. Carlos Ferreira Alves
Vinte anos em São João Nepomuceno

Trechos extraídos de pesquisa de Oráida Muniz em 8 de janeiro 1996. Relatos de José Basílio, com redação de Adilson Cunha Honório e adaptações de José Carlos Barroso

No ano seguinte ao de sua formatura pela Faculdade de Medicina e Cirurgia do Rio de Janeiro com o grau máximo, chegou Dr. Carlos Alves a São João, isso em 1876, e aos 23 anos. Casou-se com D. Maria José de Castro (D.Mariquinhas), recebendo o nome após de D. Maria José Alvim Ferreira Alves, constituindo uma família ilustre. Desta união nasceram Humberto Ferreira Alves, Pedro Carlos Ferreira Alves, Carlos Ferreira Alves, Olga Ferreira Alves da Silva, Irene Ferreira Alves Torga, Maria Regina Ferreira Alves Almeida. Junto do esposo, foi, D.Mariquinhas, o anjo anônimo que estendeu seus braços de neve sobre seu lar e seu esposo, dando-lhe forças e coragem, trabalhando com ele no cumprimento da tarefa que deveriam realizar.
Dr.Carlos Ferreira Alves veio para São João atendendo ao convite de seu amigo de atividades escolares, Dr.Joaquim Antônio Dutra, indo morar no bairro Caxangá, onde morou o Sr.Amansueto Ranna e ali também instalou seu consultório. Mostrou-se tão evidente sua capacidade administrativa e sua liderança que, em 07 de setembro de 1883, por divisão geral foi levado ao mais alto cargo do município - Agente Executivo ou Prefeito.
Nessa fase encontrou no Sr.Neca Basílio, o delegado que lhe seria útil, nomeando-o para o cargo. Permaneceram juntos até o fim, tendo aquele senhor pedido demissão do cargo, logo após a partida do amigo, Dr. Carlos Alves.
No período agudo da calamidade pública que assolou nossa terra, foi o Dr.Carlos Alves, além de prefeito e médico, juiz, advogado, trabalhador braçal, padioleiro, cozinheiro, enfermeiro, coveiro, mas, sobretudo, o amigo, irmão e apóstolo.
Algumas obras do Dr.Carlos Alves venceram o tempo e aí estão para ilustrar nossas palavras, contudo vamos citar algumas delas: o antigo Fórum Municipal, onde hoje funciona a Escola da Comunidade Dr.Augusto Glória (Dr.Augusto Glória Ferreira Alves era irmão do Dr.Carlos Ferreira Alves) e a praça fronteiriça, que é hoje a praça Treze de Maio, que teve, durante muito tempo, o nome de seu criador.
Além da construção de pontes e estradas, construiu também o nosso cemitério municipal, o jardim municipal onde hoje é a praça que leva o seu nome, e ainda o Quartel da polícia militar, a cadeia pública, o mercado municipal, onde hoje se erguem as instalações da Cia.Força e Luz.
Era o Dr.Carlos Alves membro do partido conservador (partido do Imperador do Brasil D. Pedro II) e, através dele, foi eleito Deputado Provincial de Minas, mas, ao ser proclamada a república, afastou-se da política, voltando à sua clínica. Os amigos e o povo, porém, solicitaram sua volta à vida política e ele se juntou aos republicanos, tendo sido eleito senador ao Congresso Constituinte do Estado.
Sob sua lúcida orientação, foi construído o prédio da Intendência Municipal, hoje, Paço Municipal, a nossa Prefeitura.
Organizou três exposições com foco para a agricultura. Exposições estas para apresentação do produto pelo qual girava a economia do município, ou seja, o café, atraindo assim novos compradores e investidores para o produto aqui produzido, sendo a primeira em 1884, a segunda em 1885 e a terceira em 1886, que foram incentivo para que o Dr.Alves criasse a colônia agrícola do Núcleo, que recebeu o seu nome - Núcleo Colonial Dr.Carlos Alves - onde implantou, numerosa colônia de italianos.
Determinado, arrojado, ousado, ativo, planejou duas tarefas gigantescas para a época, sendo, uma delas, a estrada de ferro para o município de Santa Bárbara (que hoje tem o seu nome), interrompida pela epidemia que assolou nossa terra em 1890: uma doença (bexiga ou varíola) que cobria o corpo da vítima de pústulas sangrantes, inflamadas, cujas conseqüentes repercussões no organismo levavam à morte.
A segunda obra idealizada pelo Dr.Carlos Alves, foi a fábrica de tecidos “Mineiros”, que começou a funcionar com 25 teares e um motor de 25 cavalos força.
No auge da epidemia que devastou nossa cidade, Dr.Alves desenvolveu, ao lado da dedicada esposa D.Mariquinhas, um trabalho apostolar: era o médico, cozinheiro do Lazareto, enfermeiro. Fazia o trabalho farmacêutico moendo sais no almofariz, combinando medicamentos para aviar receitas, no que D.Mariquinhas já auxiliava com segurança e conhecimento.
Levava o Dr.Alves consolo aos órfãos, sustentando o ânimo dos desesperados porque o pavor dominara a população e muitas pessoas deixavam seus doentes, seus vizinhos ou familiares, fugindo horrorizados. Diante da extensão do trabalho e da luta, Dr.Alves chamou seu irmão (então no Rio) Dr.Augusto Glória Ferreira Alves, que chegou aqui para ajudar. O quadro era dantesco, difícil, desorientador e, em pouco tempo, o Dr.Glória disse ao irmão que ia embora, e que ele também deveria ir, antes de contrair a doença e ter o mesmo fim que os outros. Consciente, abnegado, Dr. Carlos Alves respondeu que o lugar dele era aqui, que de modo algum abandonaria o posto, iria até o fim. Dr.Glória respondeu emocionado: “Se você quer suicidar-se ... fique”. E ele ficou.
Morriam, às dezenas, as vítimas da bexiga, varíola, ou peste preta, e Dr.Alves não permitia que os corpos das vítimas fossem sepultados no cemitério municipal (conhecido depois como cemitério velho). A área que abrange todo o recinto onde funciona a Exposição, descendo para a frente e para trás, foi escolhida para enterrar os corpos das vítimas em covas, com o dobro da profundidade exigida, para evitar novos surtos da doença, e tais covas não deveriam, nem poderiam ser abertas de novo. As únicas pessoas que estavam ao lado do Dr.Alves nesse trabalho eram o coveiro Martelo e o delegado Neca Basílio que não escondiam o pavor que os dominava, que só era contido pela energia e autoridade do Dr.Alves.
Outra área extensa (onde hoje está o campo de aviação) também foi transformada em cemitério dos bexiguentos e jamais se mexeu em profundidade nesses terrenos. Foi o Dr.Carlos Ferreira Alves, incontestavelmente o maior, ou único vulto de nossa história político-administrativa, e, no sentido crítico, um Apóstolo do Bem. Suas obras aí estão, presentes em grande número, ressaltando o novo plano da rede de água e esgoto que ele planejou, mas não pôde concluir, tendo sido terminado por seu irmão Dr.Augusto Glória Ferreira Alves, com todo material importado da Alemanha. E tudo isto aí está para ser visto e comprovado, apesar dos cem anos transcorridos. Quando em 1895 poucos casos de varíola eram constatados, numa tétrica manhã, explode a febre amarela e a luta recomeça sob a direção daquele homem cuja força, determinação e fé vinham certamente de Deus. Realmente o médico sanitarista Dr.Carlos Ferreira Alves foi a mais empolgante personalidade que serviu à causa pública de nossa terra.
Lutou sem temor contra o excesso de afazeres, o jogo da incompreensão, os obstáculos de uma maioria de mandões que queriam controlar tudo, até a vida alheia.
O cemitério não comportava o número de corpos a serem sepultados e em pouco tempo já não havia mais vagas.
A cidade descia do Largo da Matriz para o vale e crescia em direção a Furtado de Campos, constituindo um problema para o Dr.Carlos Alves que precisava de um novo cemitério. O local ficava nas terras que pertenciam ao Barão (personalidade muito conhecida na época, e até hoje por pessoas mais antigas). O Barão, por sua vez, não queria correr o risco de pegar a febre amarela e nem pretendia um cemitério nos seus domínios, e, então, houve a primeira revolução na cidade em prol do início imediato da construção do cemitério. Urgiam medidas drásticas. Dr.Carlos Alves tomou a frente dos trabalhadores da prefeitura, seguindo com carroças que transportavam o material e ferramentas, descendo para a cidade baixa em direção às terras do Barão acompanhado pelas orações de piedosas mulheres que oravam pelo êxito da tarefa. Os homens do Barão desapareceram e este viu a realidade de uma nova ordem pública implantada pelo Dr.Carlos Alves. E assim foi construído o nosso atual cemitério municipal.
Quando a febre amarela estava na fase super aguda, Dr.Carlos Alves foi informado de que a esposa de um soldado da polícia estava nos últimos momentos de vida e ninguém queria aproximar-se dela. Dr.Alves se fez acompanhar do delegado Neca Basílio e rapidamente chegaram à casa da doente, que não conseguiu esperar os recursos do abnegado médico, morrendo logo em seguida.
Havia de se providenciar o sepultamento daquela senhora, cujo esposo, soldado de polícia, estava de guarda e não podia deixar o posto. Dr.Alves mandou procurar o coveiro Martelo, que estava desaparecido, para abrir a cova no cemitério. Junto do delegado, tudo foi providenciado e apenas três homens transportaram o caixão, mas, no cemitério não havia sido aberta a cova e a solução foi o Dr.Alves pegar o enxadão e os outros dois pegarem as pás, e assim conseguiram sepultar a mulher.
No auge da luta e do trabalho sem pausas, tinha o Dr.Alves a esperança de melhores dias, atendendo os clientes também em sua casa, em sua mesinha simples, formulando receitas, avaliando o físico do paciente, a impossibilidade de se conseguir resultados satisfatórios, porque não tinham recursos para aviar as receitas. Ele mesmo, então, revezando-se com a dedicada esposa D.Mariquinhas, manipulava os sais, combinava os remédios. O paciente, agradecido, já ia retirar-se quando o Dr.Alves perguntava como estava a alimentação e, diante do embaraço que se estampava no rosto do doente, ele o mandava para a sua cozinha onde lhe era servida uma canja feita com simplicidade, mas temperada com muito amor e ainda recomendava que não se esquecesse de tomar o remédio e que se deitasse logo que chegasse a casa.
Onde funciona o Hospital São João era um aglomerado de casebres, ou ranchos, ou mocambos, onde algumas dezenas de famílias viviam na mais extrema miséria, com doenças de todos os tipos; não tinham água nem luz. Pois era ali o local de maior trabalho do Dr.Carlos Alves, cujos pequenos recursos ele dividia entre a fome, a doença e a miséria daquele aglomerado de gente que só tinha Deus e o Dr. Carlos Alves. Nas noites escuras e chuvosas (é na época de calamidade que o tempo colabora para fazer crescer e aprofundar as dores de quem sofre, e o sacrifício de quem ajuda), nas madrugadas frias e chuvosas via-se a fraca luz de uma lanterna que aparecia e desaparecia e todos sabiam que era Dr.Carlos Alves visitando os seus doentes que o esperavam com lágrimas de esperança, alívio e gratidão pelo remédio, pelo alimento, pelo conforto, carinho e pela luz do seu espírito amoroso e fraterno.
De um desses ranchos, certa vez, uma garotinha de 5 anos, mais ou menos, fugiu desnorteada, descendo até a altura do Grupo Escolar Cel.José Brás, onde, na época, era um trilho, e, ali, viu alguém que, ao passar por ela, ofereceu-lhe um pedaço de angu, dizendo estar muito gostoso. Levada pela fome, inocentemente, aceitou, comendo logo grande parte do angu, que, outra coisa não era, senão bola de matar cachorro.
O socorro era Dr.Alves, que chegou, se inteirou do fato, lançou mão do recurso que encontrou ali: um pedaço de borracha ou canudo que introduziu na boca da criança, operação que se repetiu por todo o dia e quase toda à noite, num total de 18 horas até que o estômago da menina fosse liberado do veneno. Essa menina seria mais tarde a esposa do delegado o Sr.Neca Basílio, de quem o Dr.Alves seria testemunha de casamento, não fosse o seu falecimento.
A falta de repouso e a multiplicação de tarefas estavam levando Dr.Alves a uma astenia perigosa e os amigos sugeriram o reforço de outros médicos para que o auxiliassem. Em pouco tempo, dois jovens médicos chegaram à cidade. Eram eles: Dr.Carlos Del Vechio e Dr.José Gomide, que, de imediato, começaram a trabalhar junto ao Dr.Alves.
Como não havia remédios e alimentos para os internados do Lazareto e nem para os demais, a preocupação do Dr.Alves transformou-se em desespero, e, convocando o delegado Neca Basílio, solicitou que ele fizesse uma requisição, confiscando os engradados de galinha que por aqui passavam todos os dias no trem expresso das 13 horas, rumo ao Rio de Janeiro. Foi uma tremenda confusão na estação da Leopoldina. A reação do agente e do chefe do trem foi muito forte, mas maior foi a energia e a autoridade do Dr.Alves. Os médicos e as pessoas presentes acalmaram o ânimo do chefe e do agente que aceitaram a requisição e desembarcaram os engradados de galinhas.
E foi assim que o Dr.Alves pendurou em cada braço umas tantas galinhas. O delegado e outras pessoas seguiram o seu exemplo. Mais tarde, o Sr.Neca Basílio confessou que estava junto do Dr.Alves naquele trabalho, não por coragem, mas por vergonha diante da energia, da autoridade e do desprendimento daquele grande amigo. Quantos infelizes que não tinham forças nem para morrer se beneficiaram com aquela medida! Imaginemos como era ser médico naqueles dias distantes! Era uma dura prova para a sensibilidade daqueles que, apóstolos da medicina, colocavam o coração acima da cabeça. Vencer obstáculos e manter serenidade e clareza de idéias exigia paciência de santo e persistência fora de todos os limites.
Numa manhã em que se esgotaram todos os recursos, também a esperança abandonou os colegas do Dr.Alves, que, sem se despedir, partiram.
O Dr.José Gomide foi para as bandas de Santa Bárbara do Rio Novo, já atacado pela febre maligna e ali mesmo veio a falecer.
O mesmo aconteceu com o Dr.Carlos Del Vechio que, tomando a linha férrea, partiu também, a pé, para Rochedo onde, segundo informações, faleceu vitimado pela febre fatal. Mas Dr.Alves permaneceu no seu posto, lutando até tombar, vencido pela terrível febre, vencedor diante de Deus e de si mesmo.
Ao constatar o domínio da doença sobre o seu organismo, medicou-se melhorando o suficiente para seguir para Barbacena, dizendo ao seu amigo, delegado, Neca Basílio, que o levara até a estação, que ia continuar o tratamento para voltar ao campo de luta. Deixaria a família que, há algum tempo se mudara do Caxangá para a Rua do Totó, onde funcionava o Café Mendonça.
Na estação, ainda tinha esperanças de voltar, porque aceitou o convite do Sr.Neca Basílio para ser testemunha do seu casamento com a jovem que ele salvara do envenenamento.
Lá em Barbacena agravou-se seu estado. A febre voltou e só, distante da família, faleceu Dr.Carlos Ferreira Alves. Era dia 06 de fevereiro de 1896. São João perdia, assim, o médico, o amigo, o irmão, o enfermeiro, o apóstolo, que partiu para ser julgado por Deus que certamente lhe abriu seus braços misericordiosos, envolvendo-o no Seu Santo Amor.
Contava o Dr.Alves apenas 42 anos.
No seu espólio foi encontrada apenas... uma cédula de 500 mil réis.
Deixou além de esposa e filhos, um irmão, o também médico e sanitarista Dr. Augusto Glória Ferreira Alves.
Sua fiel e amada esposa Dona Maria José Alvim Ferreira Alves, faleceu no dia 22.06.1919 às 21 horas segundo o Jornal a REFORMA edição de 26.06.1919 – São João Del’ Rei.

3 comentários:

  1. Jose Carlos Barroso, saudades de vc. Pelo que vejo, pelo que leio, continuas a perpetuar a memoria de meu ilustre bisavo.. Exemplo de homem que poderia transformar o pais. nathanael andrade de sao jooa del rei, mg

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  2. Eu amo o distrito de Carlos Alves,tenho as melhores lembranças da minha infância e juventude lá na quela acolhedora terra.Sempre quis saber quem foi Carlos Alves,e nunca conseguia resolver este mistério,imaginava inúmeras possibilidades,de que familia poderia ser,de que época pertenceu .
    Estes dias através deste site consegui saciar um pouco minha curiosidade,que ainda pode ser ainda mais alimentada,pois meu desejo de conhecer o passado nunca se acaba.
    Eu fique admirada e totalmente inspirada pelo Dr Carlos Alves,posso dizer que ele superou todas as minhas expectativas sobre ele.Espero que ele sempre seja lembrado por este povo que ele tanto amou.

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  3. Eu amo o distrito de Carlos Alves,tenho as melhores lembranças da minha infância e juventude lá na quela acolhedora terra.Sempre quis saber quem foi Carlos Alves,e nunca conseguia resolver este mistério,imaginava inúmeras possibilidades,de que familia poderia ser,de que época pertenceu .
    Estes dias através deste site consegui saciar um pouco minha curiosidade,que ainda pode ser ainda mais alimentada,pois meu desejo de conhecer o passado nunca se acaba.
    Eu fique admirada e totalmente inspirada pelo Dr Carlos Alves,posso dizer que ele superou todas as minhas expectativas sobre ele.Espero que ele sempre seja lembrado por este povo que ele tanto amou.

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CAPELINHA DE SANTO ANTONIO 1925

CAPELINHA DE SANTO ANTONIO 1925

CAPELINHA DE SANTO ANTONIO

CAPELINHA DE SANTO ANTONIO

NOSSAS MONTANHAS

NOSSAS MONTANHAS
UAI! SÃO AS MONTANHAS DE MINAS

TURMA DA 8ª SÉRIE DA E.M.CORONEL JOSÉ BRAZ

TURMA DA 8ª SÉRIE DA E.M.CORONEL JOSÉ BRAZ

SEM PALAVRAS!

SEM PALAVRAS!

A FABRICA DE TECIDOS

A FABRICA DE TECIDOS
FUNDADA EM 1895

ESCOLA CENTENÁRIA

ESCOLA CENTENÁRIA
ESCOLA MUNICIPAL CORONEL JOSÉ BRAZ

FANFARRA DO INSTITUTO BARROSO

FANFARRA DO INSTITUTO BARROSO
EM SEU INICIO

VISTA PARCIAL

VISTA PARCIAL
vista da matriz -São João a noite

A PREFEITURA HOJE

A PREFEITURA HOJE

O SOBRADO DE DONA PRUDENCIANA

O SOBRADO DE DONA PRUDENCIANA
O que restou da historia? UMA FOTO!!!